Publicidade sob o olhar da sociedade.

Qual a função da publicidade? Informar? Impactar? Informar e impactar?
Quando recebi este anúncio por e-mail, comecei a pensar na publicidade em si e em seus interesses; em sua retórica; em seu apelo; em seu conteúdo e expressão; e como a publicidade apropria-se da realidade para falar diretamente com seu público. Enquanto as respostas fluíam em minha mente comecei a pensar no que estava além daquele anúncio e da publicidade, e fui empurrado para um segundo ponto onde comecei a me preocupar com a comunicação que um anúncio transmite. Como ela fala com a sociedade além de falar com seus diversos públicos. Quais os possíveis problemas que um anúncio ousando com este podem trazer para uma marca, para a imagem de uma empresa em decorrência das diversas reações, dos diversos públicos que são colocados em contato com o mesmo.
Será que é possível, na atualidade, falar apenas com o público-alvo? Acho que de certa forma sempre acaba escampando. E acredite, é isso que o mercado quer: o efeito.
Sem dúvida este anúncio causa impacto e levantará muitas discussões. Com certeza o recall está sendo alto e vai garantir uma grande repercussão e geração de mídia espontânea, por se tratar do uso da imagem feminina como objeto sexual. Isso pode parecer perfeito, mas pode realmente sair caro. O que dizer para os diversos movimentos feministas? É uma sinalização de libertação feminina, uma vitória contra o pré-conceito e nova configuração social com a mulher no comando; ou a manutenção do status-quo que através de uma visão masculina hierarquizada subjuga a mulher e a coloca/ mantém em posição de objeto sexual. O que dizer para as defensoras dos direitos da mulher oprimida; para as camadas mais conservadoras; para a mídia; para as crianças?
Na minha visão toda comunicação traz consigo diferentes visões e interpretações socioculturais e políticas. À publicidade cabe fechar este círculo de possibilidades e acabar com as (ou dar novas) interpretações e/ou sentidos. Quanto mais fechado melhor. O publicitário tem sempre um hálibe: o briefing. E pode alegar que a proposta do cliente era chamar a atenção para o tamanho do sanduíche. A análise da AdAge (http://www.ccsp.com.br:80/ultimas/noticia.php?id=40320) concentra sua crítica ao apelo sexual ligado à retórica da linguagem publicitária, segundo a agência este anúncio é muito apelativo e não dá margem a interpretações pois aliado a palavra “blow” deixa claro a alusão ao sexo oral. Também faz referência à cor da boca da mulher, o vermelho, que lembra outros lábios, e ressalta que “os americanos reprovaram”.
Esse recorte me parece até uma imposição de leitura, dá a impressão que este veículo tem a autorização de falar por todos, ou melhor ele se autoriza a falar em nome da sociedade. Isso me perturba. Estes recortes emburrecedores que tentam fazer-nos não pensar e somente aceitar. Na sociedade tecnoglobalizada, o excesso de informação, segundo Harvey¹, é uma das melhores induções ao esquecimento. Neste sentido o sujeito passa a incorporar a velocidade de transformação cultural sem perceber o que está por traz, sem pensar em sua condição no contexto social. Este sujeito entorpecido pelo excesso (de tudo) e esvaziado de sentidos e interpretações acaba por aceitar e esquecer. A velocidade é tão grande que ao mesmo tempo em que este anúncio foi veiculado na Filipinas, já estava recebendo críticas, do outro lado do Atlântico, em Nova York.
Assim, tudo se comenta. A primeira impressão causa espanto e até indignação, no momento seguinte é absorvido e esquecido, passando a fazer parte de uma consciência cognitiva impulsionada para o consumo. O que lembramos é do tamanho do sanduíche e quando a fome apertar corra ao Burger King.
1- HARVEY, David. Condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 2008. p.315
Categoria: destaques





Anúncio extremamente desagradável. Como publicitária jamais faria parte da equipe que produziu essa peça mesmo que o briefing e a aprovação do cliente nos isentasse de culpas.
Acho que sua análise é bastante completa do ponto de vista do teor publicitário e da questão da comunicação, mas mesmo que a maioria (e a maioria não é sempre ignorante ou esquecida?) corra para o Burger King eu, e muitas mulheres que eu conheço, vamos lembrar que essa cadeia de fast-junkie-food aprovou um anúncio que considero(amos) pejorativo e depreciativo para a condição moderna da mulher.
Ah, e antes que pensem que eu sou uma feminista revoltada masculinizada eu adoro fazer o que o anúncio insinua, mas não sou um “bocal de encaixe” para qualquer um e muito menos deixo barato que uma publicidade diga isso.
E tamanho, meu querido, não é o essencial, existem pequenas peças capazes de nos fazer chegar onde nenhum brutamontes desproporcional conseguiria – e falo com bastante experiência no assunto. abs e parabébs pelo blog.
Meu, esse anúncio é irado! Pornográfico e sem noção! Esses caras que bolaram isso deviam estar doidões.
A mulherada deve ter ficado revoltada hahahaha….
É isso aí – publicitários são livres e por isso que eu escolhi essa profissa – quer dizer em breve porque ainda estou ralando na facul, mas em breve…
D+
Concordo em parte com o comentário de Karina. Mas quando diz que “adora fazer o que o anuncio insinua” para demonstrar que não é feminista nem masculinizada, acho desnecessário. Uma coisa não tem relação com a outra. Muitas feministas extremistas, masculinizadas ou não, têm no sexo oral uma forma de externalizar, descarregar e compensar todo sentimento repressivo e auto-repressivo que as permeia. Freud explica. Enquanto muitas mulheres ditas “comuns”, por não se rotularem como feministas, podem não fazer e/ou gostar do ato sexual tanto quanto as feministas. Ou seja, gostar e fazer sexo oral não diz coisa alguma, sobre ser ou não ser. Como diria Shakespeare, eis a questão.
Aí já está implícito o preconceito que ronda todo um consciente coletivo sobre o que é ser, ou não, uma mulher. Sobre o que é ser, ou não, uma feminista. Nos foi realmente imposto que ser feminista é ser frustrada, masculinizada, gorda, rejeitada, e por ai vai. Assim elas se calam, perdem a força. Nesse sentido, quem iria contra um anúncio deste? Uma feminista? Essa não tem vez nem hora, porque sua imagem está gasta, deturpada. Logo, quando alguma mulher resolve falar, sente a necessidade de deixar explicito que não é uma feminista, masculinizada, frustrada…E desta maneira as coisas continuam a ser como devem ser, cada um em seu lugar. E o lugar da mulher é servir, sexualmente ou não. Não é isso?
Acho realmente que o problema não está em “ser feminista”, mas na sua radicalização, no direcionamento de sua revolta à extremidade, o que pode levar o feminismo ao patamar do machismo. Mas também entendo que muitas vezes os “extremos” são necessários para se chegar a algum lugar. Talvez agora o que importe mesmo é o caminhar para o equilíbrio nas relações homem/mulher. E assim, quem sabe isso possa ser refletido não só nos anúncios e criações publicitárias, mas em todo sistema comunicacional e educacional. Há de se haver menos preconceito no discurso e nas ações do ser humano.
Meu que loko: Um sanduba fálico em plena Burguer King e divulgado em várias quebradas!
Se fosse eu quem tivesse criado logo iam falar que é porque eu sou doido e adepto da “filosofia cannábica” como meio de vida.
Na boa eu num aprovaria porque iria ficar com medo da mulherada me pegar na rua e botar pra baixo de tanto tapa, mas publicitar (termo de minha autoria senhores e senhoras) tem a ver com viajar, com relaxar e com ousar.
A Karina me deu o lance desse site e achei maquinal (eu sempre crio novos termos entende?).
É como eu sempre digo pros meus velhos: não sou eu quem foi feito para publicidade, mas a publicidade é que foi feita para mim. Especialmente para mim!
Saudationes a todos.
Aos olhos atentos da sociedade quase nda escapa..obrigado por deixarem suas opniões elas são mto importantes para a ampliação das discussões em torno da comunicação e da publicidade…
Gladiador… vc poderia fazer uma esplanação mais longo para a comunidade Ecana e os internautas interessados do que seria o termo Publicitar.. aproveite est espaço “quase” democrático..
Legal a opnião de todos e até mais
Publicitar, meu camará e nobre autor do super sacal post, é exercer o espírito da publicidade o tempo todo em todas as situ-actions da life.
Ou seja é praticar a publicidade intensamente e em qualquer momento e para isso é preciso que haja inspiração e também piração para liberar a mente dos grilhões institucionais solidificados na mentalidade da massa.
Por isso que achei demais o anúncio e intenso as suas bem traçadas linhas.
Eu me basto ao cuidar da arte porque prezo fazer da minha vida uma obra de arte incompleta, porque somos finalizados one day, mas ao mesmo tempo cuido para ser suave, densa, fumaçenta e sem esquizofrinóides.
Eu me sinto liberto, mas não libertino e apesar de gostar da peça em que nos debatemos, repito o que disse: não aprovaria porque achei carregado nas tintas simbioeróticas compreende?
O signo, para ser intenso, não precisa ser agressivo, pejorativo ou invasivo. É como diz a frase famosa: Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás!
Saudationes a todos.
Eu adorei o anúncio. Talvez não aprovaria aqui, mas nos EUA não veria problema. Eles são culturalmente politicamente incorretos. Basta ver os programas que eles assistem.
, seja homem ou mulher.
Um dia desses estava vendo na MTV o reality “A double shot at love”, em que duas gêmeas gostosíssimas e bissexuais escolhem um namorado incomum
Isso nunca passaria no Brasil porque somos muito conservadores, embora tenhamos outra imagem lá fora.
E saindo do mérito discutido acima “quem chupa e quem não chupa”, acho que valeu a intenção, até porque é só um reflexo do comportamento da sociedade contemporânea, que respira sexo.